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Meditação para tempos brutos

Meditação para tempos brutos

Como seria viver sem angústias, sem ansiedades e sem medos? Parece uma proposta utópica, mas tem gente vivendo assim até em épocas complicadas como a nossa. E para alcançar esse estado não é preciso raspar a cabeça, viver em celibato ou recluso em uma montanha no Tibete. É possível flutuar em êxtase mergulhado no mundo alucinado das grandes cidades, no meio de um engarrafamento colossal ou diante de uma profunda tristeza.

Uma das pessoas que diz ter encontrado esse caminho é a neozelandesa Jaya Ishaya, 50, professora e monja da meditação Ascensão Ishaya há mais de dez anos. De malas prontas para visitar o Brasil para uma série de palestras, Jaya conta como a meditação transformou a sua vida e por que decidiu que dedicaria seu tempo a ensinar outras pessoas.

Trip. Desde que conheceu a meditação, o que se transformou em você?

Jaya Ishaya. Em 2000, os professores de um tipo de meditação chamado Ascensão Ishaya estavam na minha cidade e um amigo sugeriu que eu fizesse um curso. Mesmo que por fora minha vida parecesse “agradável” naquela época, dentro de mim só existia medo, insegurança, julgamentos e o hábito de me comparar com todos. Quando aprendi a meditação, senti minhas defesas desaparecerem instantaneamente. Eu parei de desafiar e lutar contra o mundo. Minha atitude em relação aos outros mudou, então todas as minhas relações mudaram. Eu não tinha ideia de que era “eu” que estava criando medos e inseguranças na minha vida. Até então, culpava tudo e todos por isso.

O que você descobriu de pior sobre você mesma com a prática? Eu era extremamente teimosa e podia até machucar as pessoas na tentativa de provar que estava correta. Através da meditação, vi que podia simplesmente não tomar as coisas de forma pessoal. O mundo não estava me atacando, então eu não precisava me defender. Eu achava que ser forte significava ser uma guerreira e lutar, mas a verdade é que isso é cansativo e difícil. Eu não posso fazer tudo sozinha. Precisamos de pessoas ao nosso redor para nos transformar na melhor versão de nós mesmas.

Não é fácil enfrentar nossos demônios. Mas se queremos ser seres humanos melhores, precisamos fazer essa viagem interna. Como a meditação pode ajudar? Por mais assustador que pareça, encarar nossos demônios com orientação de pessoas que já fizeram isso pode ser um processo gentil e sem julgamentos. A verdade é que todos nós já fizemos algo pelo qual nos arrependemos ou que machucou pessoas queridas. Ao enxergar isso, se arrepender é uma perda de tempo. Viver no passado é uma perda de tempo. Quando grudamos nas coisas, querendo algo de volta – reconhecimento, perdão, qualquer coisa –, somos nós que estamos bebendo do veneno. Então a pergunta é: como posso fazer melhor agora? A meditação me ensinou a deixar o passado ir e viver no presente. E é impressionante como coisas podem ser curadas desta forma. A meditação me mostrou que era possível amar meus demônios.

É infantil acreditar que não haverá períodos difíceis na vida. O que a meditação pode fazer por nós quando tudo fica muito complicado? A meditação me mostrou que mudanças são incríveis. Se eu não estou me segurando a tudo com força, então posso mudar de direção e me mover na direção que o Universo quer que eu vá. Mas quando “eu tenho um plano” e “eu penso que estou certa”, aí eu causo sofrimento e dor a mim mesma se as coisas não saem do jeito que eu queria.

Como você acha que o mundo poderia ser diferente se as crianças aprendessem a meditar? Imagine um lugar onde as pessoas não julguem. Ou, se o fizerem, possam rapidamente perceber e por isso não lutem para estar certos. Imagine um lugar onde falar e ser ouvido é normal. Um lugar onde as pessoas são elogiadas, a despeito do que estejam fazendo. Imagine quão pouco medo vai haver nesse mundo e quanto apoio será oferecido. Crianças que meditam aprendem a não ser violentas ou medrosas porque se conectam a uma força interior que conhecem e onde se sentem seguras.

Ainda existem características em você que gostaria de mudar, mesmo depois de tantos anos de meditação? Eu estou sempre soltando mais, amando mais, e sendo mais paciente e compassiva. Sei que algumas vezes reajo. A diferença é que posso ver e me responsabilizar por isso. Posso pedir desculpas, posso mudar, e sou consciente de que temos visões e fazemos as coisas de forma diferente. Amo o fato de sermos diferentes. Ainda não gosto de ver pessoas se machucando ou sofrendo por minhas palavras ou ações. Mas faço o que acredito ser certo e as pessoas reagem como reagem. Não posso agradar a todos. Mas posso amar todos.

Qual foi seu maior ganho com a meditação? Felicidade e paz. São apenas palavras, mas como experiência são incríveis. Estar em paz com o que é, com a realidade do mundo. Você não consegue mudanças através da raiva. É apenas através do amor que você cria esse espaço. E as mudanças que queremos talvez não sejam as mudanças que o Universo nos reserva. Isso acontece quando me esvazio de opiniões. O contentamento que inunda essa experiência é amor incondicional.

Como é a vida de um monge Ishaya? A maioria dos monges Ishayas são pessoas completamente normais. Não deixaram suas famílias para viver em um monastério, não se transformaram em alguém que os amigos não reconhecem mais. Não quero sugerir que exista algo errado com quem opta por viver em reclusão, raspar a cabeça etc. Todos os caminhos são bons, mas nesse não é necessário mudar nada no seu mundo externo. E é fundamental viver no presente. Então, de uma forma geral, se você quiser continuar suas queixas a respeito do medo do futuro, nós provavelmente não estaremos muito interessados em participar da conversa. Somos pessoas com trabalho, família e compromissos, mas vivemos no presente e convidando outros a perceber como a vida é incrível neste momento, aqui e agora. De repente a gente tem um momento eureca de: “opa, não há nada errado!”. Viver todo dia sem que haja nada de errado é incrível! Então, quando você experimenta isso você quer compartilhar com todo mundo. É para isso que dedico a minha vida. É isso que, para mim, é viver como um monge Ishaya.

Qual foi a maior mudança que você percebeu em alguém depois de algum tempo meditando? Os ombros abaixam, as pessoas relaxam e um sorriso ilumina o rosto. É como se elas rejuvenescessem dez anos, porque não se preocupam mais, não sentem raiva ou tristeza. Eu vi dores desaparecerem, dores físicas e emocionais. Vi pessoas se darem conta de que o passado se foi e não precisa mais de atenção, então vamos nos focar no presente e desfrutá-lo.

Existe algum episódio muito difícil na sua vida que você gostaria de ter uma segunda chance para fazer diferente? Tenho a consciência de que tudo que aconteceu na minha vida foi perfeito para que eu fosse o que sou hoje, então não mudaria nada. Os machucados, as inseguranças, os desafios me colocaram no caminho da curiosidade, que me levou à meditação e à experiência incrível que tenho hoje. Eu fugi de casa quando tinha 16 anos para viver a minha própria vida e provar para o mundo que eu era livre. Eu me reconectei com meus pais alguns meses depois de fugir, mas continuei a viver dessa forma. Só que nunca tinha entendido o tamanho da dor deles, a apreensão que sentiam e a confusão que criei. Anos depois, quando puxei o assunto e falamos a respeito, entendi essas coisas. Eles achavam que tinham feito alguma coisa para que eu tomasse a decisão de sair de casa. Não tinha nada a ver com eles. Se eu pudesse, voltaria atrás para que eles não passassem por esse sofrimento.

O que a Ishaya traz de especial como técnica de meditação e caminho para o autoconhecimento? As técnicas de atenção plena buscam trazer você para o presente, perceber como está se sentindo e colocar seu foco no que está acontecendo agora. Já é um grande passo enxergar quem é você e quem você é neste mundo. Para a meditação Ishaya você não é as suas emoções, você não é o seu ego. Esse tipo de meditação que escolhi praticar é uma ferramenta e um caminho que nos liberta dessa enorme mentira que nos enxerga sempre como vítimas. É uma armadilha tão grande acreditar que os pensamentos em nossas mentes somos nós… A grande mentira da vida é o ego. Temos estatísticas mostrando no que a vida se transformou por acreditar nisso: 40% das pessoas registraram depressão clínica ou pensamentos suicidas. Isso não é normal!

O que é normal? O silêncio. Quando você não experimenta nenhum pensamento, o agora pode se transformar no seu estado natural de ser. Nossa grandeza, nossa interconectividade, o propósito de nossa existência, a razão de estarmos vivos, tudo passa a fazer sentido. Com essa experiência, o corpo responde, deixando ir o stress e a tensão. Esse é o grande ganho da meditação: viver de verdade!

Quando você acredita que a meditação será realmente algo para todos? Eu cresci em uma cultura em que a maioria estava em negação dos benefícios da meditação. Quando estudos de universidades de renome foram divulgados em revistas famosas, as pessoas começaram a mudar de ideia. O poder da mídia e do marketing nos conta o que é bom ou ruim e as pessoas seguem. Mas está crescendo o desejo em ter um propósito, e se sentir completo, satisfeito e feliz. Mais pessoas estão abraçando a possibilidade de que o que elas estão fazendo não está funcionando. O ritmo de seus pensamentos é incessante e enlouquecedor? Você se dá conta de que esse pensar te leva à ansiedade, nervosismo, stress e exaustão? Todos experimentamos isso. A meditação que eu pratico ensina a observar esses pensamentos e, focando em algo maior, tira deles o poder. Assim eles se dissolvem.

Em que ela é diferente das demais? Acho que é diferente na simplicidade e, talvez, na rapidez com que age em nosso organismo. O maior vício da humanidade hoje é pensar. A meditação, se praticada, te liberta desse vício. Essa que eu escolhi praticar me ensinou a mudar meu foco de atenção. É fácil. Gentil. Eficaz. Tanto faz quem você é, o que você fez ou o que você está fazendo, a meditação Ishaya vai funcionar se você a usar.

Como essa técnica é ensinada? Você não ensina conceitos. Você orienta as pessoas a experimentar pela própria experiência. O ensinamento é milenar e é transmitido por um professor que, por seis meses, dedicou 100% do seu dia a aprender, com orientação de monges experientes. Não dá pra ensinar em uma mesa de bar, embora seja perfeitamente possível você meditar de olhos abertos em uma mesa de bar.

Fonte: Revista TRIP

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